'' Coloquei as lembranças para lavar. Em breve, irão secar. ''
Há dois olhos umedecidos e trêmulos vizualizando uma tela de 16 polegadas de um Notebook. Há dez dedos teclando no ritmo da batida da despedida, da véspera do choro, e muitos travesseiros e edredons na cama que me acalenta o pranto e que sustenta a mim e a meu texto. Há um quarto, bem bagunçado, como de costume, no terceiro andar de uma casa em Londres, com estórias de todo canto do mundo, escondidas em cada detalhe, no cantinho do espelho, no teto e dentro do guarda-roupa. Há lembranças esvoaçantes, dispersas, circulando por toda minha mente. E, sobretudo, há um garoto gritando todo seu sentimento para palavra porque, segundo ele, a palavra nos escuta.
Ao menos por um tempo, a porta que se abriu em mim e na minha vida depois que cheguei em Londres, há dois meses atrás, estará fechada, assim como a porta da foto acima, pela qual eu entrava e saia diariamente durante toda a vida londrina. Porque fazer um intercâmbio é abrir uma porta de dentro para fora, em ti. E nessa abertura reside a essência, a natureza, do intercâmbio. A inter-troca. Você deixa e recebe um tanto, sempre. Você ensina o que lhe é familiar e absorve e o que lhe é estranho, diferente, exótico. Você se mistura. Eu deixei sorriso e luminosidade por onde passei. Recebi tudo quanto é coisa, desde os trejeitos japoneses, o ritmo de fala dos sul coreanos, até o ''jajaja'' dos colombianos, que tanto enfeita a fala deles. Você perde todas as referências que tem, porque as ruas são todas em nomes ingleses, com significados ingleses, os programas na TV tem outros temas, e todos são em inglês. Os artistas, as propagandas, os teatros, o cinema, os filmes, os políticos. Quem são os famosos ? Quais são as histórias deles ? Como é a constituição inglesa ? Então, dai, Você se estranha e se reconhece, e depois se rejeita, e se aceita novamente, e vai e vem, e sente, e ressente. Você se enxerga projetado para o mundo, e vê sua própria cultura não só no seu espelho, não só em seu limitado campo de interpretação, mas em toda a vastidão da diferença mundial. E então você conclui, finalmente, que você é um, e não o.
Não dá pra medir em metros, cm², ml, ou o que quer que a ciência tenha inventado como medida, o que essa experiência somou em mim. Somou cultura, acima de tudo. Somou autoconhecimento. Somou aprofundamento, tanto em mim quanto, também e principalmente, na língua inglesa. Eu estou maior. De fato, cresci, vocês vão perceber, estou mais alto, com menos medo de mim, com mais conhecimento, com mais autocrontole. Estou mais emotivo, me permito sentir e concretizar de acordo com a sensação. E nesse contato com tanta coisa diferente, você acaba tocando as suas próprias estranhezas, porque quando você viaja pelo mundo você está viajando, na verdade, pelos meandros do si mesmo. E por isso tudo seu que parecia ser estranho tende a ser familiar, por óbvio. O cabelo que era feio, passa a ser apenas diferente. A altura que era absoluta, passa a ser relativa. O feio pode ser apenas diferente. O bonito pode ser, também, apenas diferente. Os estereótipos, coitados, são demolidos, destruídos, sacrificados em nome do diálogo, da percepcção de que, por mais que as pessoas sejam segmentadas, classifcadas em diferentes culturas, elas são sempre bastantes em si mesmas, completas, vieram prontas. Os estereótipos existem, é claro, mas o problema deles é que eles fazem com que um exemplo se torne o único exemplo.
Por fim, eu quero mesmo é agradecer a meu Pai, por ter me assitido não só financeiramente, mas em toda a dimensão do significado de assitência. À Flávia - ''Quem é Flávia, menino ?'', que me leu diariamente e me revelou o quão profundo um amor entre uma madrasta e um entiado pode ser, o quão forte é o sentimento que temos um pelo outro. Aos meus amigos, que, mesmo longe, estiveram perto de mim, em mim, em meu Blog. E, sobretudo, a Deus. Porque eu sei que ele organizou isso para mim, e certamente porque eu vou precisar retribuir ao universo de algum modo.
Bem, as lembranças já foram lavadas. Agora, vou deixar elas secarem. Porque, daqui há algumas horas, o hoje vai ser tornar ontem, e tudo o que eu vivi aqui estará arquivado. Apenas.
P.s. Estou cheio de inspiração, inflado, insuflado, flutuando. E morto de saudades de minha família. Não estranhem, por favor, porque quando eu chegar eu quero abraçar completo um de cada vez. Todos.
Beijo na alma.
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